Digite "Nínive" no Google Maps e você chega a 36,36°N, 43,15°E — na margem leste do Tigre, mesmo em frente à cidade iraquiana moderna de Mossul. A cidade que o livro de Jonas chama a grande cidade ainda está aqui, sob a forma de montículos e portões escavados, à beira de uma cidade de quase dois milhões de habitantes.
Um versículo e uma recusa
Jonas abre com uma ordem breve. O profeta ainda não fala. O versículo nomeia a cidade e o seu problema.
"Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até diante de mim."
A resposta de Jonas, no versículo seguinte, é fugir na direcção oposta. O livro é a razão pela qual o nome da cidade sobreviveu no imaginário religioso muito além do império que a edificou. O versículo chama Nínive a grande cidade — expressão que o livro retoma três vezes. O hebraico é ha-ir ha-gedolah. No século VIII a.C., a cidade era a maior do mundo, com cerca de 120 000 habitantes dentro de muralhas com cerca de 12 quilómetros de perímetro.
O que foi escavado
A escavação moderna começou nos anos 1840 sob Austen Henry Layard e revelou o Palácio Sem Rival de Senaqueribe, uma biblioteca com tabuinhas cuneiformes que incluem a Epopeia de Gilgamés, e os grandes portões da cidade — Mashki, Adad, Nergal, Shamash. Os célebres relevos de Laquis, que retratam o cerco assírio a uma cidade judaica em 701 a.C., vieram deste palácio e estão hoje no British Museum. A arqueologia de Nínive é um dos alicerces de todo o campo da história bíblica.
O que 2014–2017 fez
Os portões de Mashki e de Nergal, parcialmente reconstruídos no século XX, foram fortemente danificados no período de conflito de 2014 a 2017. O sítio ficava na área afectada, e vários relevos de pedra e elementos reconstruídos perderam-se. Os trabalhos de restauro começaram em 2019 com apoio internacional, incluindo o portão de Mashki, onde, em 2022, durante a reconstrução, arqueólogos descobriram relevos de palácio assírio até então ocultos. O sítio recupera. Continua sob vigilância.
A cidade que se arrependeu
O livro de Jonas — coisa rara para um livro profético do Antigo Testamento — termina com a cidade estrangeira a ouvir e o profeta descontente com isso. E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, pergunta o SENHOR no fim, em que há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua esquerda? (Jonas 4:11). O versículo cuida de contar crianças e animais. O livro que nomeia a cidade é o livro que se recusa a abdicar dela.
Nínive hoje
Mossul, cidade-espelho da Nínive moderna do outro lado do rio, está a reconstruir-se desde 2017. Os montículos arqueológicos à margem da zona urbana estão de novo acessíveis. O Conselho Iraquiano de Antiguidades continua as escavações. O versículo que abre Jonas continua a fazer o seu trabalho — envia o leitor, em imaginação se não em pessoa, à grande cidade de Nínive.
O império que ergueu os muros desapareceu. O versículo que nomeou a cidade é mais antigo do que os muros.