Digite "Babilónia" no Google Maps e você chega a 32,54°N, 44,42°E — cerca de 85 quilómetros a sul de Bagdade, junto à cidade iraquiana de Hillah. O sítio que Génesis 11 nomeia é uma das zonas arqueológicas mais escavadas do mundo. Muralhas, fundações e a plataforma da zigurate continuam lá. A cidade que o versículo chama Babel e a cidade que arqueólogos iraquianos chamam Babilónia são o mesmo conjunto de montículos.
Um versículo e uma torre
Génesis 11 regista aquilo que a Bíblia hebraica coloca no início da história urbana documentada. O versículo é breve. A ambição é enorme.
"E disseram: Eia, edifiquemo-nos uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra."
A palavra hebraica para torre é migdal. O nome hebraico Babel é ligado, no versículo 9, ao verbo balal — confundir. Os habitantes acádios teriam ouvido Bab-ilim — porta do deus. Mesmas sílabas, duas leituras. O versículo tem o cuidado de não negar que a torre fosse real; discute com a versão que a cidade dá de si mesma.
A cidade de Nabucodonosor
A Babilónia mais conhecida dos leitores da Bíblia não é a cidade patriarcal de Génesis 11, mas o império de Nabucodonosor II (605–562 a.C.), o rei que destruiu o Templo de Jerusalém e levou Judá ao exílio. A sua cidade tinha uma muralha dupla de 18 quilómetros de perímetro, oito portões (entre eles a Porta de Ishtar — cujos relevos em tijolo vidrado azul estão hoje no Museu de Pérgamo de Berlim), e a zigurate Etemenanki — o referente histórico mais plausível para a Torre de Babel. A inscrição de fundação de Nabucodonosor sobreviveu: Fiz o topo da torre-templo tocar o céu. O versículo e a inscrição correspondem-se quase palavra por palavra.
O século XX em Babilónia
Arqueólogos alemães escavaram sistematicamente Babilónia entre 1899 e 1917, levaram a Porta de Ishtar para Berlim e produziram os primeiros mapas detalhados. Os trabalhos iraquianos prosseguiram ao longo do século XX. Nos anos 1980, Saddam Hussein mandou erguer um palácio sobre os montículos originais e ordenou a reconstrução parcial das muralhas de Nabucodonosor — com tijolos novos com o seu próprio nome. A reconstrução é polémica; muitas das estruturas hoje visíveis misturam camadas antigas e modernas. O que é genuinamente do I milénio a.C. e o que é dos anos 1980 nem sempre é óbvio numa fotografia.
O que hoje resta
Os danos durante a Guerra do Iraque de 2003 — incluindo uma base militar EUA/polaca no sítio — provocaram indignação internacional. A UNESCO inscreveu Babilónia como Património Mundial em 2019, em parte para formalizar a protecção futura. Hoje o sítio está aberto ao público. A plataforma de Etemenanki é ainda visível. A via processional onde se erguia a Porta de Ishtar continua transitável. Os Jardins Suspensos não foram definitivamente localizados; alguns estudiosos defendem que ficavam em Nínive, não aqui.
Babilónia hoje
Hillah, a cidade iraquiana moderna ao lado do sítio, tem cerca de 600 000 habitantes e depende, em parte, do rio que as inscrições babilónicas chamavam Eufrates — mesmo rio, mesmo curso, mesmo nome. Ao longo da história, Babilónia foi topónimo, império, metáfora, atalho rastafári para sistemas de opressão, e tema de uma das canções mais tristes do saltério hebraico. Junto aos rios de Babilónia é, geograficamente, este lugar. O versículo de Génesis é o mesmo versículo com que o resto da Bíblia tem de continuar a discutir.
Um versículo nomeou a cidade. A Bíblia nunca deixou de ter essa discussão.