Artigo · Na música

Sam Smith pediu emprestada a expressão. O versículo escreveu-a primeiro — dedos, cal, o salão de um rei.

O tema de *Spectre* de Sam Smith em 2015 pega numa expressão inglesa mais antiga do que a própria língua. Leia Daniel 5:5 — a cena original de onde a frase vem.

Daniel 5:5

Writing's on the Wall de Sam Smith venceu o Óscar de Melhor Canção Original após a estreia de Spectre em 2015 — o primeiro tema James Bond a obter esse prémio. A letra é uma canção de amor com a prudência de quem viu o perigo à frente e pergunta ao amado se entrará na mesma. O título é uma citação. A expressão the writing's on the wall é uma frase fixa em inglês há pelo menos quatrocentos anos, com o sentido de sinal de que o desastre vem, claro o suficiente para ser visto por qualquer um com olhos. Mas a expressão é mais antiga do que isso. É mais antiga do que o próprio inglês.

Vem de uma cena única do livro de Daniel, situada por volta de 539 a.C. O rei Belsazar de Babilónia dá um banquete. Bebe em vasos que os seus antecessores tinham levado do templo de Jerusalém. Enquanto a sala ressoa em ouro, uma mão aparece na parede e escreve. O rei vê os dedos mas não consegue ler o que escrevem.

Daniel 5:5

"Naquela mesma hora apareceram dedos da mão de um homem, e escreviam, defronte do candelabro, na caiadura da parede do palácio real; e o rei viu a parte da mão que estava escrevendo."

Um versículo que nomeia o sinal

O versículo impressiona pela contenção. Não nos dá trovão. Não nos dá anjos. Dá-nos dedos, ou seja uma mão sem braço, e cal, ou seja a superfície de uma parede — o material mais comum da sala. O palácio babilónico foi paramentado com pinturas e ouro, e o aviso vem no material mais barato que o edifício usa. Os dedos escrevem no ponto em que o candelabro acerta na parede. O versículo cuida de especificar o que o rei : não o sentido, apenas a mão que escreve.

É isto que torna a expressão utilizável em qualquer língua desde então. A frase não descreve a mensagem. Descreve o momento em que a mensagem se torna fisicamente presente. Writing's on the wall é a mesma postura em 539 a.C. e em 2015. O mundo mudou; a situação mudou; a parede — o instante em que o perigo se torna visível — é a mesma.

O que Belsazar não conseguia ler

A história continua para além do versículo. Belsazar chama os seus conselheiros; não conseguem ler a mensagem. Daniel é introduzido. O texto na parede é Mene, Mene, Tequel, Ufarsim — contado, contado, pesado, dividido. Daniel lê-o como juízo: o reino foi contado, pesado, achado em falta, e será dividido entre medos e persas. Naquela noite, prossegue o relato, Belsazar é morto e o reino muda de mãos.

A canção não é sobre Belsazar. Mas o narrador da canção está no seu momento — o que separa o ver da escrita e o conseguir lê-la. Se eu arriscar tudo, podes amparar a minha queda? é, em atalho idiomático, a oração de alguém que viu os dedos mas ainda não sabe se a mensagem é juízo ou socorro.

Por que a expressão pegou

O inglês absorveu the writing's on the wall no início do século XVII, depois de a Bíblia King James estar suficientemente difundida para a frase entrar na leitura comum. A expressão sobreviveu porque a situação que descreve não é rara. As pessoas veem sinais que ainda não conseguem ler. Os sinais são claros o bastante para não serem ignorados, mas pouco claros o bastante para exigirem interpretação. O filme de Bond — sobre um agente a ler a sala de uma organização que tem preparado a sua destruição — encaixa no versículo à letra. O narrador de Sam Smith está mais próximo do convidado que viu a mão e esperou tradução.

O que a canção arrisca

A letra não termina em resolução, mas em pergunta. O narrador está disposto a entrar no aviso da parede se o amado também entrar. O versículo, lido em todo o capítulo, não o promete. Belsazar é julgado quer entenda quer não. Mas o versículo não condena a pergunta. Louva o ver. O primeiro passo de Daniel 5 é o rei ver os dedos. Por isso é louvado brevemente, ainda antes de ser julgado. Olhou.

A canção é, neste pequeno sentido, oração de olhar. Pede ao ouvinte — e ao amado, e talvez a Deus — que esteja ali quando o sentido da parede chegar.

Os quarenta segundos

Leia Daniel 5:5 uma vez. Naquela mesma hora apareceram dedos da mão de um homem, e escreviam, defronte do candelabro, na caiadura da parede do palácio real; e o rei viu a parte da mão que estava escrevendo. Quarenta segundos. Nesse tempo, o título da canção é devolvido à sala de onde veio. A cal é barata. Os dedos são reais. O ver é dado a quem olha.

A parede é o espectáculo. O versículo é a fonte. A escrita é o que a canção pede ao amado para ler com ela.
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