Artigo · Na música

Drake intitulou a canção com uma expressão mais antiga do que ele. Jeremias escreveu-a primeiro — eu sei os planos que tenho para vós.

O êxito de Drake em 2018 pegou numa frase que está há décadas em metade dos cartões de finalistas. Leia Jeremias 29:11 — e repare que o versículo foi primeiro dirigido a exilados.

Jeremiah 29:11

God's Plan (2018), de Drake, tornou-se o single rap número um por mais tempo na história da Billboard. No ano do lançamento, o título da canção apareceu em mais cartões de finalistas, slides de sermão e ecrãs de estádio do que quase qualquer outra expressão religiosa em inglês. A frase tem sido emprestada há tanto tempo, por tantos falantes, que a maioria dos ouvintes esqueceu de onde vem. A fonte do Antigo Testamento é um único versículo, no meio de uma longa carta que o profeta Jeremias escreveu — não a finalistas de qualquer espécie, mas a um grupo de exilados judeus que tinham sido transferidos à força para a Babilónia e a quem se dizia para se estabelecerem por uma geração.

O versículo é breve, brilhante, e quase sempre citado fora do seu cenário:

Jeremias 29:11

"Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança."

Um versículo enviado a exilados

O capítulo que contém este versículo abre com uma cena que a maioria dos leitores modernos salta. A Babilónia destruiu Jerusalém. A primeira leva da elite judaica foi levada. Falsos profetas na comunidade cativa dizem ao povo que o cativeiro será breve — façam pouca bagagem, não desfaçam, o SENHOR vos resgatará em meses. Jeremias, ainda em Jerusalém, escreve uma longa carta a contradizê-los. Edificai casas, plantai jardins, casai os vossos filhos e filhas, procurai o bem da cidade para onde fostes levados. O exílio, diz, durará setenta anos.

Então, depois da notícia dura, vem o versículo. Eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito é oferecido como consolação a uma comunidade a quem se acabou de dizer que não voltará para casa em breve. À primeira audição, o versículo não é um cartaz inspiracional. É uma promessa feita a pessoas cujo futuro imediato já está fixado e que precisam de saber que o horizonte longo continua cuidado.

O que Drake pegou emprestado

A canção de Drake não prega. A letra está mais perto de uma autodescrição do que de paráfrase de Jeremias. God's plan, God's plan / Reprimo-me, às vezes não, sinto-me bem, às vezes não. A canção usa a frase como os ouvintes contemporâneos a usam — como modo de dizer o caminho em que estou ultrapassa o meu.

É um gesto autenticamente jeremiânico, mesmo que Drake não o tenha escrito assim. O versículo do capítulo 29 trata exactamente da distância entre o que os exilados veem (Babilónia, ruas de tijolo, deuses estrangeiros) e o que Deus alega estar a fazer (um horizonte longo, um futuro, paz para além dos setenta anos). O narrador da canção olha para o seu sucesso — rádio, dinheiro, cidade natal — e admite, em atalho, que não fabricou tudo. O versículo esperava esse reconhecimento desde o capítulo 29.

O que o versículo não diz

Vale notar o que Jeremias 29:11 não promete. Não diz que não haverá exílio. Não diz que o exílio será breve. Não diz que todos os ouvintes verão o futuro na sua vida. O hebraico para futuro e esperança é acharit ve-tikvah — literalmente um depois e uma esperança. O versículo é honesto quanto ao depois. A esperança não é concedida no instante presente. É concedida como horizonte.

Por isso o refrão funciona como confissão e não como volta de vitória. O narrador de Drake está no meio. A Babilónia é real. O versículo também é. Os dois coexistem. Quem alguma vez tenha citado God's plan a meio de algo duro tem, sabendo-o ou não, repetido a estrutura da carta de Jeremias.

O que o videoclipe fez

Drake lançou o vídeo de God's Plan no início de 2018. Pegou no orçamento de cerca de um milhão de dólares e deu a maior parte — a escolas, hospitais, famílias na rua, um abrigo para sem-abrigo, uma mãe sozinha numa mercearia. O vídeo foi filmado enquanto entregava o dinheiro. Tornou-se o videoclipe mais visto do ano.

A escolha foi, em registo jeremiânico, a segunda metade do versículo tornada visível. Pensamentos de paz e não de mal, prossegue a frase, para vos dar um futuro e uma esperança. Drake, no vídeo, não resolvia o exílio de ninguém. Estava, em pequeno paralelo moderno, a enviar uma carta para o meio do mau ano de alguém. O padrão do versículo é o mesmo. A nota chega em plena Babilónia.

Os quarenta segundos

Leia Jeremias 29:11 uma vez. Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança. Quarenta segundos. Nesse tempo, o título da canção volta à carta de onde veio. O versículo não é cartão de finalistas. É bilhete de um profeta a pessoas que dele mais precisavam onde estavam.

O êxito é o espectáculo. O versículo é a carta. Pensamentos de paz são enviados para a Babilónia, não entregues depois dela.
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