Artigo · Na música

Madonna cantava como se chamasse o nome. O Saltério escreveu-o primeiro — a ti clamo.

O êxito de Madonna em 1989 imita o ritmo de uma oração que não pode reivindicar inteiramente. Leia Salmo 17:6 — o versículo que nomeia a oração mais simples possível: *a ti clamo*.

Psalm 17:6

Like a Prayer (1989), de Madonna, é um estudo do que é uma oração e do que apenas se lhe assemelha. O título é preciso. Como uma oração, não uma oração. Madonna, criada católica, conhecia a diferença. O refrão repete a expressão como confissão de forma: a cantora não afirma que está a rezar, mas que o que lhe acontece se assemelha estruturalmente. Um nome está a ser chamado. Espera-se uma resposta. O corpo é convidado a fazer o que os corpos sempre fizeram na presença do sagrado.

A canção tornou-se número um em quase todas as tabelas. Tornou-se também, quase de imediato, controversa — pelas imagens do videoclipe, pelo coro gospel, pela disposição de uma canção pop a nomear Deus no mesmo fôlego que o desejo. A controvérsia ocultou a qualidade mais interessante: ela permanece na comparação. Como uma oração é a posição exacta de muitos ouvintes. A canção não promete sair dela.

O versículo com que partilha a forma é breve e antigo, retirado de um salmo davídico de perseguição e socorro:

Salmo 17:6

"Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim o teu ouvido e escuta as minhas palavras."

Um versículo que define a forma

O versículo é uma das orações mais simples do saltério hebraico. Três movimentos: eu te invoquei — o acto. Tu me ouvirás — a suposição. Inclina o teu ouvido — o pedido. O hebraico para invocar é qara — convocar pelo nome, o mesmo verbo usado para nomear criaturas, chamar um amigo, juntar um exército. O versículo não especifica o que David pede. Especifica que reza como chamamento de um nome. A forma é a oração.

O refrão de Madonna usa a mesma forma. Levo-te lá — o acto. A suposição é mais difícil de ler na canção, mas a canção assenta na convicção de que o chamamento é ouvido. Ouve-me chamar o teu nome seria a linha mais forte do refrão. Versículo e canção repousam ambos na convicção de que chamar é um acto real, não um desejo.

O que a comparação permite

Uma comparação é uma aproximação que admite a sua distância. Como uma oração não é oração porque a cantora — pelo menos no quadro da canção — não é plenamente crente. Mas a comparação é uma espécie de porta. Diz: ainda não habito a forma, mas ouço-a o suficiente para a imitar. O versículo do Salmo 17 é acolhedor neste ponto. Eu te invoquei em hebraico é perfeito, mas é oferecido a quem queira tentar o gesto. O Saltério não verifica as credenciais de quem chama antes de aceitar o chamamento.

Por isso o refrão pode comover tantos ouvintes que não se dizem religiosos. A forma ensina ao ouvinte como soa o chamar. Seguir a comparação até ao seu referente fica ao critério do ouvinte.

O que fez o videoclipe

O vídeo de 1989, realizado por Mary Lambert, continua entre os mais debatidos. Inclui um santo negro que ganha vida, cruzes a arder, e um coro gospel cuja voz solo conduz Madonna à ponte. A Pepsi retirou o patrocínio. O Vaticano condenou o vídeo. Madonna foi clara em entrevista: cresceu católica, e o vídeo era luta com a Igreja que a formara, não rejeição. A canção permanece nessa luta. Like é a palavra operativa.

O versículo do Salmo 17 foi lutado de modos semelhantes durante três mil anos. No salmo, está rodeado de linhas sobre inimigos, justiça, e a reivindicação de integridade do orador. David não está numa sala calma quando o escreve. Chama porque é perseguido. O Saltério aceita esse tipo de chamamento. Aceita o chamamento do desejo. Da angústia. Da confusão. Eu te invoquei é aberto o suficiente para acolher o like de Madonna.

O que a canção não resolve

A canção termina sem resolução. O coro ergue o último refrão a algo próximo do êxtase, mas a cantora nunca diz estar mudada. Como uma oração — a comparação é sustentada até ao fim. O versículo que imita também termina em postura, não em resposta. Inclina o teu ouvido é pedido, não fecho. O Saltério está cheio de salmos que terminam com o orador ainda a pedir. O Salmo 17 é um deles.

Os quarenta segundos

Leia Salmo 17:6 uma vez. Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim o teu ouvido e escuta as minhas palavras. Quarenta segundos. Nesse tempo, o refrão de Like a Prayer assenta-se no verbo que o versículo usa. A canção é, por sua própria admissão, a comparação. O versículo é a forma que a comparação procura.

O refrão é o espectáculo. O versículo é o chamamento. Like é o que torna a canção cantável por quem aceita imitar a forma antes de reivindicar a fé.
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