A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, abre num jardim, à noite. Em dez minutos, um homem foi golpeado no rosto. Em quarenta, abriram-lhe as costas. Até ao fim, a câmara segura aquilo de que a maioria dos filmes desviaria o olhar. A crítica dividiu-se. Houve quem chamasse a violência devocional, outros chamaram-lhe gratuita. Ambas as leituras perdem uma coisa simples: existe um versículo do Antigo Testamento, escrito cerca de sete séculos antes de Jesus, que nomeia cada ferida que o filme mostra.
Esse versículo é Isaías 53:5. Muito antes de qualquer cruz ter sido erguida, o profeta escreveu sobre uma figura a que chama Servo Sofredor — um homem esmagado pelas iniquidades de outros, marcado de alto a baixo, curando os que o veem pelas mesmas pisaduras que lhe foram infligidas.
Uma profecia em carne
O quarto Cântico do Servo de Isaías (52:13–53:12) é um dos textos mais impressionantes das Escrituras hebraicas. A sua precisão perturba mesmo leitores neutros: um homem sem forma nem formosura, desprezado, silencioso perante os seus acusadores, contado entre os transgressores, sepultado com os ricos, a sua alma feita oferta pelo pecado.
"Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados."
O filme de Gibson é, em muitos aspectos, um longo e doloroso comentário a este único versículo. A sequência da flagelação — estendida para além do que a maioria dos realizadores teria permitido — não inventa o seu detalhe. Moído pelas nossas iniquidades é a promessa do versículo. O filme torna as pisaduras visíveis.
A escolha do aramaico
Gibson rodou o filme em aramaico e latim. Queria que o público perdesse a cadência do inglês familiar e ouvisse antes uma língua que soa como oração escutada por acaso. Essa escolha tem um efeito secundário: o versículo de Isaías, recitado por nenhuma personagem, é a versão que todos os espectadores conhecem. O silêncio do filme na nossa língua remete-nos à voz do profeta.
O texto do Servo Sofredor antecede a cruz em séculos. Cépticos argumentaram que, por isso, deve referir-se a Israel como nação, não a um único homem. Leitores cristãos apontaram para o ele singular do versículo cinco — ele foi ferido, ele foi moído, pelas suas pisaduras fomos sarados. Gibson não discute. Limita-se a filmar o que o versículo descreve e deixa ao espectador julgar se algo mais que um único corpo cabe ali.
A mãe
Uma sequência que o filme retém por mais tempo não é uma ferida. É um rosto. Maria, interpretada por Maia Morgenstern, observa o filho carregar a cruz e, num breve flash-back, corre na sua direção quando ele tropeça. A cena não tem palavras. O versículo de Isaías nomeia o castigo que traz a paz; o rosto da mãe nomeia o preço dessa paz para os que o amam.
O filme respeita isso. Não a transforma numa testemunha que adere a todos os pontos teológicos. Filma-a como mãe — isto é, como uma pessoa cujo amor é chamado a fazer um trabalho impossível.
Os quarenta segundos
Leia Isaías 53:5 em voz alta, devagar. Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Quarenta segundos. O argumento do filme está aí contido. O que quer que tenha acreditado sobre a cruz antes de Gibson a filmar, o profeta escreveu primeiro. O versículo é mais antigo do que a câmara.
A crítica chamou o filme extremo. O versículo que ele visualiza é mais antigo — e mais duro.