Hacksaw Ridge (2016), de Mel Gibson, é um filme construído em torno de um homem segurando um único versículo como um alpinista segura uma corda. Desmond Doss, enfermeiro adventista do sétimo dia, serviu em Okinawa sem arma. Numa única noite numa falésia que os americanos não tinham conseguido tomar — e que teriam de abandonar se as baixas continuassem — desceu setenta e cinco feridos para um lugar seguro. Tinha lido um mandamento tal como está escrito, e recusou que o convencessem a torcê-lo.
Esse mandamento é Êxodo 20:13.
"Não matarás."
O verbo hebraico ratsach é por vezes traduzido por assassinar, por vezes por matar. Doss lia a King James. Lia-a como se lê uma placa de sinalização. Não consultava o comentário posterior que distingue entre matar defensivo e matar ofensivo. Tinha ouvido a frase na escola dominical, visto o pai apontar uma pistola à mãe, e concluído que o versículo dizia o que diz. O filme conta isto sem se desculpar.
O que o filme mostra
As primeiras cenas são as religiosas. Doss inscreve o nome na Bíblia da família. Lê. Recusa pegar numa espingarda. O Exército tenta tribunal marcial; o pai, veterano da Primeira Guerra Mundial, garante uma decisão constitucional. Doss é autorizado a servir como enfermeiro — desarmado, diz o formulário.
Depois o filme passa à falésia. A falésia é filmada sem contenção. Corpos fragmentam-se no ar. Um amigo é aberto. A câmara não desvia o olhar. O propósito da violência é tornar impossível uma leitura fácil do versículo. Não matarás é mantido no seu sentido sob o tipo de pressão que faz a maioria dos leitores transigir. Doss não transige.
O que o versículo exige
Críticos perguntaram se a recusa de Doss é realista — sobreviveria uma leitura tão literal numa falésia cheia de amigos a morrer? A resposta do filme é estrutural. Não levou espingarda e, no entanto, salvou mais homens do que qualquer atirador naquela noite. Na sua leitura, o versículo não subtraía ao esforço de guerra. Mudava a unidade do esforço — de matar para resgatar.
Isto também muda a forma do mandamento. Lido com Doss, Não matarás não é apenas uma proibição passiva. É uma orientação activa. As mãos a quem é proibido tirar a vida são libertadas para outra coisa.
O que o filme sussurra
Gibson planta discretamente uma fala. Doss diz, mais de uma vez: Senhor, ajuda-me a tirar mais um. Não reza pela vitória. Não reza pela segurança. Reza pela permissão de chegar a mais um ferido antes do nascer do sol. O versículo que guarda deixou de ser parede e passou a ser mão.
É a coisa mais religiosa do filme. Não um sermão. Um homem reduzido a uma única frase, repetindo-a ao longo de uma longa noite de salvar.
Os quarenta segundos
Leia Êxodo 20:13 uma vez. Não matarás. Quarenta segundos mais que suficientes. Note depois que a brevidade é o ponto. O versículo foi dado sem nota de rodapé. Doss leu-o sem nota. O filme, à sua maneira, também o filma sem nota.
A falésia é o espectáculo. O versículo é a razão. Mais um, mais um, mais um.