Artigo · No filme

Scott filmou Deus como criança. O versículo recusou todas as imagens mais fáceis.

Ridley Scott escolheu a imagem mais contestada do filme: Deus como criança. Leia primeiro Êxodo 3:14 — e repare que o versículo também recusa todas as imagens mais fáceis.

Exodus 3:14

Êxodo: Deuses e Reis (2014), de Ridley Scott, era o tipo de épico bíblico que parecia destinado a não agradar ninguém. O público religioso esperava reverência; o secular esperava escala. Scott deu ambas, mas acrescentou uma imagem que fracturou a sala: quando Moisés encontra Deus na sarça ardente, Deus aparece como uma criança pequena e furiosa. A crítica saiu da sessão a perguntar porquê. A resposta está no versículo sobre o qual a cena se ergue.

A sarça em si é filmada como Scott sempre filma o mundo natural — lentamente, lindamente, sem comentário. O momento decisivo é verbal. Moisés pergunta: se eu disser ao povo que Deus me enviou, qual é o seu nome? E a voz responde.

Um nome que recusa

Êxodo 3:14

"Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós."

O hebraico, ehyeh asher ehyeh, é notoriamente difícil de traduzir. Há quem traduza no presente (Eu sou o que sou), quem traduza no futuro (Eu serei o que serei), quem traduza como recusa (Serei o que quiser ser — não me prendam). Todas as leituras concordam numa coisa: o versículo recolhe todas as imagens mais fáceis. Nenhum corpo, nenhum retrato, nenhuma comparação. O nome nomeia a liberdade de quem nomeia.

Sob esta luz, o Deus-criança de Scott é menos uma resposta ao versículo do que uma homenagem à sua dificuldade. A criança é pequena, pouco confiável na forma, indiferente à necessidade de Moisés de ser tranquilizado. Muitos espectadores acharam insuportável. O versículo também é. EU SOU O QUE SOU recusa ser domesticado.

Porque Moisés discute

O filme transforma a conversa da sarça em discussão, não em investidura. Moisés resiste. Tem perguntas. Esteve a ouvir os deuses do Egito durante quarenta anos, e agora esta voz pede-lhe para atravessar um povo sobre a força de uma frase. Quem sou eu, diz, para fazer isto?

O versículo não tem paciência para essa pergunta. A resposta que dá — EU SOU me enviou — contorna inteiramente a identidade de Moisés. A libertação não depende de Moisés ser suficiente. Depende de Aquele que o envia ser quem é.

A escolha que o filme esconde

Uma escolha mais subtil e mais importante do filme: Scott reduz as pragas a fenómenos naturais. O rio fica vermelho por causa de um deslizamento a montante; as moscas chegam por causa de cadáveres; os primogénitos morrem numa única vaga inexplicável. O filme deixa deliberadamente em aberto se o EU SOU do versículo age através da natureza, com ela, ou acima dela.

Essa abertura é também fiel ao versículo. EU SOU O QUE SOU não especifica método. Especifica identidade. As pragas são prova; o nome é causa.

Os quarenta segundos

Leia Êxodo 3:14 uma vez, devagar. EU SOU O QUE SOU. Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. Quarenta segundos. Nesse tempo sente-se porque Scott escolheu uma criança em vez de um homem, porque Moisés gagueja pelo resto do filme, porque a sarça ardia sem se consumir. O versículo retira toda a tranquilização, exceto a identidade. É só isso o que é enviado.

A sarça é o espectáculo. O nome é o sentido. Scott filmou ambos; só o segundo se pode ler em voz alta.
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