Noé (2014), de Darren Aronofsky, é o filme bíblico mais discutido das duas últimas décadas. Os públicos cristãos debateram se o realizador — um cineasta judeu não religioso — tinha o direito de acrescentar Vigias, um clandestino chamado Tubal-Caim e uma longa sequência em que Noé ergue um machado sobre recém-nascidas. Os cépticos debateram se o filme era pio demais ou pouco pio. Os argumentos esqueciam o versículo para o qual o filme efectivamente caminha.
O filme começa com destruição. Termina com um arco-íris. A maior parte da conversa entre os dois é sobre se a humanidade merece continuar. O Génesis responde com uma única imagem, a que Aronofsky filma mesmo no fim:
"Porei o meu arco nas nuvens, e será por sinal do concerto entre mim e a terra."
Um arco, não um adorno
A palavra hebraica traduzida por arco no versículo é qeshet — a mesma palavra que o Antigo Testamento usa noutras passagens para a arma do guerreiro. A imagem não é uma fita decorativa. É um arco de guerra deposto no céu, pendurado, voltado para fora da terra. Depois do dilúvio, Deus pousa a sua arma.
O filme de Aronofsky, apesar das criaturas acrescentadas e da lógica onírica, mantém esse desfecho. O plano final do arco-íris é rodado com contenção. Sem coro. A aliança chega, como na Génesis, num céu que já não é negro.
O que o filme acrescenta
A sequência mais polémica é tardia: na arca, Noé chega a crer que Deus não quer sobreviventes humanos e prepara-se para matar as próprias netas. Isto não está na Génesis. A Génesis diz-nos que Noé é justo, bebe vinho depois e embriaga-se. Aronofsky toma a embriaguez — que está no texto — e inventa uma crise moral antes dela.
A crítica chamou-lhe excesso. Os defensores chamaram-lhe honestidade psicológica. Ambos os lados concordaram que é um acréscimo. O notável é que o filme afasta Noé do acto. Não consegue baixar a faca. A sua própria misericórdia, diz, sobrepôs-se ao que julgava ser vontade do céu. O arco-íris segue-se quase de imediato. A aliança torna-se resposta divina a uma recusa humana.
A misericórdia como chão
Gênesis 9:13 é frequentemente lido como Deus a fazer paz com a humanidade. Pode também ser lido como Deus a ratificar a misericórdia como chão de qualquer futuro. O dilúvio foi juízo, e o juízo foi real. O arco diz: o próximo capítulo não começará nesse tom.
Aronofsky encena isto sem piedade, o que explica em parte por que o filme inquieta tanto crentes como descrentes. Mostra o dilúvio como horror. Mostra os sobreviventes como gente partida. E mantém o arco no céu o suficiente para que o público sinta que não é um autocolante, mas um voto.
Os quarenta segundos
Leia Gênesis 9:13 uma vez, devagar. Porei o meu arco nas nuvens, e será por sinal do concerto entre mim e a terra. Quarenta segundos. Nesse tempo, imagine um arco verdadeiro — madeira, corda, retesado — pousado sobre um céu e a apontar para lugar nenhum. É o versículo. É o que o filme, depois de todo o seu debate, está disposto a mostrar.
O dilúvio é a parte ruidosa. O arco é a parte que o relato quer que se recorde.