Matrix (Wachowski, 1999) assenta numa pergunta com a qual a primeira metade do filme nos faz viver: qual das duas realidades aceitas? Neo, um hacker chamado Thomas Anderson, recebe a oferta de um comprimido vermelho ou um azul. Tome o azul e continue dentro da simulação confortável. Tome o vermelho e descubra como as coisas realmente são. O filme gira sobre Neo tomar o vermelho.
O que se segue não é paz. Noutra língua, é guerra. Ele é desligado para um corpo que dói. É-lhe dito que o mundo que amava é código de computador. É treinado, perseguido, morto, devolvido. A simulação que achava tolerável era-o porque era mentira.
O versículo que o filme não cita
Os Wachowski povoam o filme com nomes bíblicos — Trinity, Nabucodonosor, Sião, Apoc — sem citar versículos bíblicos em voz alta. Mas há uma frase no Evangelho de Mateus que se ajusta ao comprimido vermelho com mais exactidão do que qualquer fala do filme:
"Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada."
Não paz, mas espada. É um dos versículos mais difíceis de Mateus. A maioria dos leitores espera que o cristianismo comece pela paz. Jesus, nesta passagem, nomeia o contrário. Aceitar o seu ensino é aceitar a ruptura — nas famílias, nas vizinhanças, em si mesmo. A paz que se segue, se se segue, é uma paz diferente da anterior. Não regressa à mesma sala.
Matrix diz o mesmo na sua própria gramática. A Neo é-lhe oferecido conforto, e ele recusa. É-lhe dada verdade, e a verdade vem com violência. O filme não acredita que a verdade seja suave no primeiro instante.
O preço que o filme nomeia
Cypher, um dos tripulantes desligados, acaba por fazer a escolha oposta. Negoceia para ser reinserido na simulação em troca de trair os amigos. Sei que este bife não existe, diz ao agente que lhe apagará a memória. Sei que, quando o ponho na boca, a Matriz diz ao meu cérebro que é suculento e delicioso. Ao fim de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é felicidade.
O filme não despreza Cypher. Compreende-o. A felicidade é o que a maioria dos primeiros ouvintes do versículo esperava da religião. Mateus 10:34 foi escrito precisamente para dizer: não é isso que vem.
O que Trinity faz
A cena da ressurreição do primeiro filme tem Trinity a chamar Neo de volta da morte com palavras. As suas palavras não vêm de nenhum evangelho. Mas a estrutura é bíblica: alguém que se ama fala connosco através da fronteira da morte, e atravessamos de volta. A paz que vem depois dessa travessia não é a paz da simulação. É a paz de uma pessoa que sabe o que é verdade.
É a paz que o versículo aponta. Está do outro lado da espada.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão — só a meia frase: Não vim trazer paz, mas espada. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o filme sabe. Que o conforto que a verdade rompe sempre foi uma espécie de irrealidade. Que o despertar lhe custa o mundo em que pensava viver. E que o novo mundo, qualquer que seja o seu tempo, ao menos já não é falso.
O comprimido foi tomado. A simulação rachou. A paz do outro lado é uma paz diferente.