Artigo · No filme

Esmeralda rezou pelos rejeitados. Jesus já havia nomeado onde Ele se encontra.

O filme mais religioso da Disney pergunta quem é o monstro e quem é o homem. Leia Mateus 25:40 — o versículo nomeia o lugar onde Cristo disse que se O encontraria.

Matthew 25:40

O Corcunda de Notre Dame (1996), da Disney, é, de longe, o filme mais religioso que o estúdio fez. Abre com o Dies Irae cantado por um coro em latim. Contém um sermão dentro de uma capela privada, onde rostos de vitral observam um juiz — Frollo — a cantar para a sua própria condenação. Filma uma catedral como verdadeiro lugar de asilo, onde a lei tem de parar à porta. Esmeralda, em todos os sentidos estranha à cidade — cigana, mulher, escarnecida —, ajoelha-se diante do altar e reza.

A canção é God Help the Outcasts. Não reza por si. Não peço nada, diz. Eu safar-me-ei. Reza pelas pessoas que a cidade teme. O versículo sobre o qual a canção se ergue é uma das coisas mais directas que Jesus disse sobre onde Ele realmente se encontra:

Mateus 25:40

"Em verdade vos digo: quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes."

Um versículo que desloca Deus

Mateus 25 é a grande cena de juízo do ministério de Jesus. O Filho do Homem separa as ovelhas dos cabritos. O critério é inesperado. Não pergunta por doutrina. Não pergunta por pureza ritual. Pergunta uma coisa: deste de comer ao faminto, de beber ao sedento, recebeste o estranho, vestiste o nu, visitaste o preso? Aos que o fizeram, diz o versículo acima.

O extraordinário é o a mim. Cristo não diz o que fizestes por eles foi uma boa acção. Diz a mim o fizestes. O versículo desloca a presença divina para a pessoa que a cidade decidiu não olhar.

O filme da Disney visualiza o versículo sem o citar. A oração de Esmeralda pelos rejeitados decorre dentro da catedral, num asilo construído sobre pedras que nomeiam Deus. Enquanto reza, os parisienses ricos rezam por carruagens e ouro. A câmara não é subtil. O versículo também não.

O latim de Frollo

O vilão do filme, o juiz Claude Frollo, é um homem que cita a Escritura, canta o Confiteor, e atira os inimigos através do vitral. O filme não o transforma num hipócrita de banda desenhada. Canta HellfireDeus, tem piedade de mim. Tem piedade dela. Mas ela será minha, ou arderá — com total entrega vocal. Acredita estar do lado de Deus. O filme defende que leu mal o versículo que Jesus colocou no centro do seu juízo.

Frollo pergunta quem é o santo e quem o pecador; o versículo pergunta onde Cristo se esconde. Frollo nunca pensa em olhar para Quasimodo nem para Esmeralda. O versículo insiste: Cristo está exactamente ali.

O asilo como versículo

A própria catedral funciona como Mateus 25:40 em pedra. As suas portas devem abrir-se aos perseguidos. Asilo, grita Esmeralda agarrada à corda do sino. A igreja está ligada a uma regra mais antiga do que os seus frescos: os pequeninos não podem ser entregues à lei que os caça.

O filme está disposto a filmar isto devagar. Esmeralda não é salva da fogueira por um argumento esperto. É salva porque Quasimodo a leva para um edifício cuja arquitectura se lembra de um versículo. O pequenino entra no asilo às costas de outro pequenino.

Quem é o monstro

As últimas linhas do filme, cantadas pelas gárgulas a Quasimodo, fazem a pergunta a que o versículo tem respondido o tempo todo: o que faz um monstro, e o que faz um homem? A resposta não é a arquitectura, nem o rosto, nem a lei. O versículo antecipou a pergunta. Homem é quem quer que seja o mais pequeno do mundo, quando Cristo está nele.

Os quarenta segundos

Leia Mateus 25:40 uma vez. Em verdade vos digo: quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Quarenta segundos. O filme cabe lá. Notre Dame mantém-se. A cidade move-se. O versículo redirecciona a pergunta de onde Deus mora para o campanário, o beco, o acampamento cigano.

A catedral é o espectáculo. O versículo é o endereço. O mais pequeno é o lugar onde Cristo disse que responde.
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