Jesus Walks (2004), de Kanye West, foi o terceiro single do seu álbum de estreia The College Dropout. Em entrevistas, disse esperar que as rádios recusassem tocá-la porque o refrão repete o nome Jesus. O contrário aconteceu. A canção tornou-se sucesso top-vinte, ganhou um Grammy de Melhor Canção Rap e tornou-se uma das faixas de hip-hop mais citadas da década. Na própria canção, Kanye vê a ironia chegar. Dizem que se pode rappar sobre tudo menos sobre Jesus, rappa. Isso significa armas, violência — mas se eu falar de Deus, o meu disco não vai tocar.
A canção é uma oração num tempo em que normalmente não se reza. O narrador nomeia o que tem carregado — medo, fraqueza, um primo traficante, uma guerra em que o país estava — e pede a Jesus para caminhar com ele. Não para resolver tudo. Não para tirar os fardos. Para caminhar.
Esse pedido é, quase à letra, o convite do capítulo onze de Mateus:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei."
Um versículo que não pede credenciais
O versículo é uma das frases mais citadas de Jesus. O que se passa por alto é a porta que deixa muito aberta. O grego para cansado é kopiaō — esgotado pelo trabalho. Oprimido é pephortismenoi — sobrecarregado, carregado, com peso que não é só seu. As duas palavras juntas descrevem quase toda a gente: o trabalhador, o pai, o soldado, o dependente, o preso, o doente. O versículo não nomeia categoria moral. Nomeia uma postura.
A canção de Kanye funciona como paráfrase porque permanece nessa postura. Quero falar com Deus mas tenho medo porque há tanto não falamos, rappa. Mesmo que peque, mesmo que pareça destruído. O versículo nunca pediu ao trabalhador para se limpar antes de vir. Pediu ao trabalhador que viesse.
Por que a canção se espalhou
O refrão repete Jesus walks with me — no presente, confissão antes do pedido. A gramática é a do versículo. Vinde a mim pressupõe que o falante já se move. O trabalho é o que leva o ouvinte à porta. A canção não oferece nada que o versículo não tenha oferecido primeiro.
Kanye esperava que a rádio rejeitasse o refrão. A rádio aceitou-o. O versículo, na sua época, foi oferecido a uma multidão cujos líderes religiosos tinham uma longa lista de coisas a verificar antes de se aproximar. Jesus não verificou a lista. Ao saltar a verificação, o versículo criou a sua multidão. Dois mil anos depois, uma canção que fez o mesmo na rádio criou a mesma multidão.
O que a canção não promete
O versículo promete alívio. Grego anapausis — pausa, alívio, levantamento da carga. Não promete que a carga desaparecerá. Não promete que a guerra acabará. Promete que quem carrega encontrará um lugar para a pousar por algum tempo. A canção de Kanye reflecte isso. Jesus walks — não Jesus solves. Não Jesus rescues from history. A promessa é presença. Os fardos do narrador continuam na canção até ao fim. Jesus também.
Por isso a canção pôde tocar em rádios que teriam recusado uma oração mais triunfalista. O versículo é suportável para ouvintes de qualquer convicção porque oferece algo pequeno. Caminhar com. Descansar brevemente. O narrador não precisa de estar limpo primeiro.
O versículo por trás do versículo
Em Mateus, a frase é a primeira metade de um convite mais longo. Tomai sobre vós o meu jugo, lê-se a seguir, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Jugo é a barra de madeira que une dois animais para que puxem juntos uma carga. O versículo oferece, depois do vinde, um juntos. A canção faz o mesmo sem o substantivo agrícola. Walks with me é o mesmo jugo em inglês moderno.
Os quarenta segundos
Leia Mateus 11:28 uma vez. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Quarenta segundos. Nesse tempo, o refrão da canção assenta-se. O narrador, o ouvinte, o versículo, o convite estão na mesma sala. Todos os que estais cansados foi o público que o versículo esperava. A rádio, no fim, concordou.
O refrão é o espectáculo. O versículo é a porta. Vinde a mim é o que torna a canção cantável sem resolver os fardos que enumera.