Artigo · No filme

Hércules mergulha no rio das almas. O versículo nomeia o acto — o maior amor.

O Hércules da Disney pega da mitologia grega e de uma definição cristã de heroísmo. Leia João 15:13 — o versículo que nomeia o que faz um verdadeiro herói: não a força, mas a entrega.

John 15:13

Hércules (1997), da Disney, passa-se numa Grécia que o estúdio desenhou como uma revista de moda. O Olimpo é dourado e lavanda. O Hades é vulcânico. As Musas cantam gospel. Sob o camp, o filme faz algo mais discreto do que a superfície permite. Ensina ao seu jovem público uma definição de heroísmo que nada tem a ver com força.

Hércules nasce deus, é criado mortal, e passa a maior parte do filme a tentar regressar ao Olimpo tornando-se um herói. Vence a Hidra. Ergue Titãs. Esgota arenas. O filme, no final do segundo acto, fá-lo parar. Ser famoso e ser herói não é a mesma coisa, diz-lhe Zeus. Um verdadeiro herói não se mede pelo tamanho da sua força, mas pela força do seu coração.

Esta frase é, na sua gramática, paráfrase exacta de uma das frases mais famosas de Jesus. Falava, na noite anterior à crucificação, a discípulos que só a entenderiam algumas semanas depois:

João 15:13

"Ninguém tem maior amor do que este: o de dar a sua vida pelos seus amigos."

Uma definição que desvaloriza a força

O versículo faz o mesmo trabalho do filme. Recusa-se a definir grandeza pela força, pela vitória, pela reputação. Define-a pelo dar. O grego para dar a vida é tithēmi — pousar, colocar, entregar. O verbo é paciente. Não é o verbo de quem se atira a um combate. É o verbo de quem pousa algo num balcão e se afasta.

É isto que Hércules faz no clímax. Megara, a mulher que ama, foi morta por uma coluna que caiu, que ela atraiu sobre si para o tirar do caminho. Ele desce ao reino de Hades, aceita o trato que recusou ao longo do filme, e mergulha no rio rodopiante de almas. Não mergulha para lutar. Mergulha para entregar. Está disposto a trocar a vida pela dela. O versículo, escrito quinze séculos antes da Disney, nomeia o acto.

O que o filme acrescenta ao versículo

O resultado, no filme, é inesperado. O rio mata mortais; não pode matar um deus. O acto de dar a vida prova o que nenhum teste de força provara: ele é, de facto, filho do seu pai. Um verdadeiro herói, repete Zeus, mede-se pela força do seu coração. O Olimpo abre-se para o receber.

O versículo, claro, termina de outro modo para Cristo — o dar é real e permanece real. Mas a arquitectura moral do filme é a mesma. A capacidade de morrer por alguém revela a filiação divina. Hércules não é adoptado no Olimpo pelos seus feitos. É reconhecido como já lhe pertencendo.

Isto, diga-se de passagem, é um instinto cristão, não grego. O heroísmo grego fala mais de força do que de substituição. Ao fazer do mergulho no rio a prova, o filme reescreve o mito na gramática do versículo.

O que Megara vê

Megara é a leitora mais clara do filme. Foi a voz cínica em grande parte — sou uma donzela, estou em apuros, eu trato disto, bom dia. O mergulho desloca-a do cinismo para a honestidade. As pessoas fazem coisas loucas, diz fracamente depois da troca, quando estão apaixonadas. O versículo é mais duro. Ninguém tem maior amor. Mas ela viu o versículo por dentro.

O par Hércules-Megara não é uma história de amor no sentido usual. É uma exegese. O versículo define o amor pela entrega. Ela define-se a si mesma percebendo que ele entregou.

O que fica

O filme está disposto a abdicar do seu final feliz de uma maneira particular. Hércules escolhe permanecer mortal no fim. Ganhou a divindade; devolve-a. O versículo, depois de o atravessar, não pára. Dar é a orientação, não só o momento. É-lhe pedido que o faça pelo resto da vida.

Os quarenta segundos

Leia João 15:13 uma vez. Ninguém tem maior amor do que este: o de dar a sua vida pelos seus amigos. Quarenta segundos. Nesse tempo ouve-se a frase que a Disney passou noventa e três minutos a dramatizar. A Hidra é o espectáculo. O rio é o versículo. Dar é o que a câmara, no fim, quer que se sinta.

O Olimpo é o espectáculo. O versículo é a prova. Hércules passou-a porque recusou ganhar.
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