Artigo · No filme

Máximo é o homem que Paulo descreveu. Combateu, acabou, guardou a fé.

Gladiador passa-se na Roma pagã, mas o herói termina a vida dentro de uma frase cristã — combater, acabar, guardar a fé. Leia 2 Timóteo 4:7 ao lado da cena final.

2 Timothy 4:7

Gladiador (2000), de Ridley Scott, passa-se em 180 d.C., antes de o cristianismo se tornar a fé oficial de Roma. O espanhol, Máximo Décimo Meridio, é um general romano reduzido a escravo, depois a gladiador, depois a homem que combate o próprio imperador diante da multidão. Reza em pequenos altares domésticos a Marte e aos antepassados. Crê no Elísio — um além-vida romano. É, em todo o sentido formal, pagão.

E, no entanto, quando o filme termina e a sua mão tomba sobre o trigo no campo imaginado, a frase que lhe assenta com mais exactidão vem de uma carta do Novo Testamento que Paulo escreveu numa prisão romana, possivelmente no mesmo século:

2 Timóteo 4:7

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé."

Três verbos, uma vida

O versículo apoia-se em três verbos gregos — hēgōnismai (lutei), teteleka (acabei), tetērēka (guardei). O arco de Máximo encaixa em cada um pela ordem. Combateu; o filme abre na campanha da Germânia e não solta o combate. Acabou; conclui a missão que Marco Aurélio lhe confiara antes do assassínio, devolvendo o poder ao Senado. E guardou a fé — não em Cristo, mas naquela piedade familiar que o versículo, na sua forma romana mais antiga, designa.

É isto que faz a frase ressoar mesmo num filme pagão. O vocabulário do versículo é atlético, não especificamente cristão. Bom combate. Carreira acabada. A gramática serve a qualquer vida que tenha resistido ao seu encargo.

O que Máximo guarda

O filme diz com clareza o que Máximo guarda. Voltarei a ver-te, diz à mulher no pó antes da morte, mas ainda não. Ainda não. A fé que tem não é credal. É a certeza de que o que ama está preservado — que o assassínio da mulher e do filho não foi a última palavra sobre eles.

Lida ao lado de 2 Timóteo 4:7, essa certeza torna-se legível. Paulo escreve a frase sabendo que será morto em Roma. Não a escreve como derrota. A próxima frase é famosa: de agora em diante, a coroa da justiça me está guardada. Máximo, claro, não recebe coroa paulina. Mas o filme honra a sua versão da mesma convicção — alguma coisa está guardada.

A oração do espanhol

Ao longo do filme, Máximo carrega pequenas figurinhas de barro da mulher e do filho. Beija-as antes do combate. Sussurra-lhes no escuro. As figurinhas são pagãs; o gesto é universal. É o que toda pessoa fiel já fez na ausência de quem ama — segurar um objecto que ficava no lugar deles e rezar.

Quando, no fim, Quinto apanha as figurinhas e as imprime na poeira de Máximo, o filme fecha o gesto. O reencontro é encenado em terra e em grão. O versículo fecha da mesma maneira: de agora em diante — isto é, depois do combate, da carreira, da guarda — alguma coisa está guardada.

O que Scott deixa ficar

Scott não chama Máximo cristão. O além-vida do filme é um campo romano soalheiro, não uma cidade de pérolas. Mas a estrutura do desfecho é bíblica, não romana. As epígrafes romanas mediam uma vida pelas honras e cargos. O versículo mede-a em verbos. Combati. Acabei. Guardei. É o que a câmara sobrepõe à música final.

Os quarenta segundos

Leia 2 Timóteo 4:7 uma vez. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Quarenta segundos. Três verbos, uma frase breve. Quer chegue ao trigal de Máximo, quer a outro qualquer, este versículo é o que permite resumir uma vida sem mentir sobre ela.

A arena é o espectáculo. Os três verbos são o versículo. Ambos cabem numa pequena figurinha de barro.
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