Na parede sul da Capela Sistina, pintada uma geração antes de Miguel Ângelo tocar o tecto, está As Provações de Moisés de Botticelli. O papa Sisto IV encomendou os frescos murais em 1481 — uma sequência de cenas das vidas de Moisés e Cristo, correndo em paralelo pelas duas paredes longas. Botticelli pintou uma das cenas de Moisés.
O fresco que conta várias histórias de uma vez
O que surpreende o espectador moderno é que o fresco não mostra um único momento. Mostra oito. No primeiro plano à direita, Moisés, jovem e de cabelos dourados, mata um feitor egípcio. Atrás dele, foge para o deserto. Mais acima, continua a fugir. À esquerda, chega a um poço em Midiã. Um grupo de mulheres veio tirar água para os seus carneiros. Uns pastores enxotam-nas. Moisés enfrenta os pastores. Depois, no primeiro plano à esquerda, tira água e dá-a às mulheres e ao seu rebanho. Mais para a esquerda, minúsculo ao fundo, ajoelha-se diante de uma sarça ardente.
Oito cenas, um quadro, uma paisagem contínua. A convenção visual chama-se narrativa contínua. O olho do espectador atravessa o tempo atravessando o espaço.
A cena junto ao poço
Quase todo o primeiro plano do fresco é dado a uma cena: o poço. É o argumento do quadro sobre o modo como Moisés se torna o que mais tarde será.
"O sacerdote de Midiã tinha sete filhas; e elas vieram tirar água e encheram os aguadoiros para dar de beber ao rebanho de seu pai. Então vieram os pastores e as enxotaram; mas Moisés levantou-se, e defendeu-as, e abeberou-lhes o rebanho."
Moisés levantou-se. O verbo hebraico é wayyōqom — levantou-se, ergueu-se. O mesmo verbo que mais tarde descreverá a sua partida para tirar Israel do Egipto. Aqui, em terra estranha, junto a um poço, ele levanta-se por sete mulheres que não conhece. O futuro libertador começa por ajudar estranhas a carregar água.
Botticelli pinta este instante como o centro da composição. Moisés, de veste dourada e verde, curva-se ao poço e puxa. As mulheres observam. Uma ovelha bebe. Os pastores que tentavam bloquear o acesso foram mandados para a orla do enquadramento. O fugitivo hebreu tornou-se, pelo acto de erguer um balde, um pastor.
Os fogos menores nas margens
Ao longe, a sarça ardente. Brilha num pequeno trecho da tela — minúscula em comparação com a cena do poço. O argumento de Botticelli: a sarça, a grande vocação, acontece mais tarde. Antes da montanha, antes da voz, antes da libertação, há isto: um homem que matou, que fugiu, que tirou água para estranhas junto a um poço.
O quadro dá mais tela ao tirar de água do que ao fogo. Não é por acaso.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão — só a oração: Moisés levantou-se, e defendeu-as, e abeberou-lhes o rebanho. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o fresco sabe. Que a vocação é preparada por bondades menores, muitas vezes para pessoas que nunca saberão o seu nome. Que as mãos que mais tarde se estendem sobre um mar tiraram primeiro água do poço de um estranho.
A sarça arde ao longe. As ovelhas bebem bem perto. As mãos que erguem o balde são as mesmas mãos.