Artigo · Na arte

Seis homens ligados em fila. A tragédia não é a cegueira — é o seguir.

Seis homens com doenças oculares diferentes caminham em cadeia, caindo um a um na valeta. Leia Mateus 15:14 ao lado do quadro do último ano de Bruegel.

Matthew 15:14

No Museu de Capodimonte, em Nápoles, está pendurada A Parábola dos Cegos de Pieter Bruegel, o Velho, pintada em 1568, o ano antes da sua morte. Seis homens atravessam uma encosta pouco inclinada, cada um segurando um cajado, cada um ligado ao da frente por um ombro, um cinto, uma mão estendida. O primeiro homem, à direita, já caiu. O seu corpo está no ar, de rosto voltado para uma valeta com água. O segundo segue-o pela borda. O terceiro sentiu algo e inclina-se para trás — demasiado tarde. O quarto, quinto e sexto ainda julgam caminhar em terreno firme.

Seis homens em fila

Bruegel pintou a cadeia com uma precisão médica pouco comum. Cada homem tem uma doença diferente dos olhos. Catarata. Globos oculares atrofiados. Olhos extirpados. Não são cegueiras simbólicas. São cegueiras clínicas. Bruegel desenhou a partir de modelos reais — raro para este tema.

O versículo que se tornou quadro

A palavra de Cristo no Evangelho de Mateus é breve e incisiva:

Mateus 15:14

"Deixai-os; são condutores cegos de cegos; ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova."

Se um cego guiar outro cego. Jesus fala dos fariseus, que se haviam queixado de que os seus discípulos não seguiam uma certa lavagem ritual. Responde aos seus próprios discípulos dizendo-lhes que não lhes prestem atenção. Não porque os fariseus sejam insignificantes, mas porque são guias que não podem ver. A metáfora é cuidadosa. Não é que os cegos não devam caminhar. É que os cegos não devam guiar.

Bruegel pinta isto como uma cadeia física. Cada homem confia no que vai à frente. Nenhum deles tem como saber que aquele que vai à frente não vê. A tragédia não está na cegueira — está no seguir.

A igreja no plano médio

Por trás da fila que cai, Bruegel pintou uma aldeia flamenga. Uma igreja está tranquila na encosta, o campanário visível acima das árvores. Os historiadores discutem há séculos se isto é ironia — uma igreja a olhar com indiferença para os seus fiéis a caírem na valeta — ou se a igreja é oferecida como alternativa, um lugar para onde a cadeia poderia ter-se voltado.

Bruegel não resolve isto. A igreja está simplesmente ali, na paisagem, mais ou menos no mesmo instante que a queda. O que o espectador faz da sua presença foi sempre responsabilidade do espectador.

Os quarenta segundos

Copie o versículo à mão — só a oração: se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro sabe. Que estar errado não é a tragédia; ser elo na cadeia errada é que é. Que a pergunta a fazer a qualquer guia não é se está confiante, mas se consegue ver.

O primeiro homem está no ar. O terceiro inclina-se para trás. O sexto ainda confia no cinto que segura.
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