Artigo · Na arte

A luz na montanha é real. O menino no vale também é real.

Rafael pintou a montanha e o vale juntos: três discípulos veem a luz, nove discípulos falham a curar um menino. Leia Mateus 17:2 ao lado do seu último quadro.

Matthew 17:2

A Transfiguração de Rafael está nos Museus do Vaticano. É o seu último quadro. Morreu em 1520 antes de o concluir, e os seus discípulos terminaram a parte inferior. A tela está dividida verticalmente, mas a divisão não é uma linha — é uma nuvem.

Duas cenas, um só quadro

A metade superior mostra o que três discípulos viram. Pedro, Tiago e João jazem no topo de uma montanha, protegendo os olhos. Acima deles, Cristo flutua, os braços ligeiramente erguidos, a veste feita de luz. De cada lado, Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas. A luz nesta metade é branca e vertical.

A metade inferior é mais escura. Um menino foi levado aos nove discípulos restantes para ser curado do que o texto chama um espírito imundo. Os olhos do menino reviram. O seu corpo está contorcido. O pai segura-o por trás. Os discípulos apontam e discutem entre si. Não conseguem curá-lo. Alguns apontam para cima — para o acontecimento na montanha, que sucede no mesmo instante.

O que cada lado vê

Os Evangelhos descrevem a Transfiguração com uma frase que Rafael toma como centro do quadro:

Mateus 17:2

"E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz."

O seu rosto resplandeceu como o sol. O verbo grego é metemorphōthē — foi transfigurado, literalmente mudado de forma. É o verbo de onde vem metamorfose. Mateus não tenta descrever como a mudança pareceu por dentro. Descreve o que os três discípulos viram por fora: como o sol, brancas como a luz. São comparações. A realidade está para além do nomear directo.

Rafael pinta as comparações e pinta também o que os que não estão na montanha veem. Veem um menino que não pode ser curado.

A simultaneidade em que cada Evangelho insiste

É o argumento de Rafael. A Transfiguração não acontece em isolamento. Acontece no mesmo instante que o sofrimento no vale abaixo. Mateus, Marcos e Lucas contam as duas histórias consecutivamente. Rafael, único entre os pintores, coloca-as na mesma moldura.

O quadro recusa deixar o espectador olhar apenas para cima. O brilho da montanha é real. A convulsão do menino também é real. Se o quadro tem uma teologia, é a de que a revelação e a aflição são simultâneas, e que o trabalho dos discípulos — o nosso trabalho — se faz sobretudo no vale, onde a cura não chega tão depressa como a luz.

O pai que não sabia que a luz estava a acontecer

Na parte inferior, o pai do menino possuído olha directamente para o espectador. Não olha para cima. Não sabe da montanha. Só sabe do seu filho.

O relato de Marcos inclui o grito do pai: Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade. Rafael não pinta o grito, mas pinta o rosto que em breve o há-de dizer. O rosto de alguém que segura um filho em sofrimento num mundo onde, fora da vista, algo brilha que poderia ter ajudado.

Os quarenta segundos

Copie o versículo à mão — só o centro: o seu rosto resplandeceu como o sol. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro sabe. Que a luz da montanha não anula o vale. Que as pessoas que não conseguem ver a luz continuam a trabalhar, a segurar, a esperar ajuda. E que um pintor, no fim da sua vida, pode segurar ambos num só enquadramento.

O menino está em convulsão. O pai espera. Acima deles, a luz está firme.
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