Artigo · Na arte

Uma vela junto ao rosto. A pergunta de uma serva. E nas sombras atrás, uma cabeça a começar a girar.

Uma vela contra o rosto de Pedro. Uma serva a perguntar. Rembrandt importa o pormenor de Lucas para a negação de Mateus — e pinta o instante exacto antes do galo.

Matthew 26:74-75

Rembrandt pintou A Negação de Pedro em 1660, em Amesterdão, oito anos antes de morrer. O quadro é quase todo escuridão. É iluminado por uma única coisa: uma vela segurada por uma serva, protegida com a outra mão, erguida junto ao rosto de um homem idoso. O homem é Pedro. A barba é grisalha, os olhos muito abertos em alarme. Uma mão está erguida — palma para fora, como a empurrar a luz, embora não seja a luz que ele resiste, mas a pergunta.

A vela que não o deixa esconder-se

A serva inclina-se para a frente. O rosto é jovem, curioso, sem hostilidade. Atrás deles, na sombra, dois soldados. E por trás dos soldados, mal visível — pormenor que Rembrandt acrescentou e que não está em Mateus — uma figura que vira a cabeça.

Aquele que se volta

No Evangelho de Lucas, a cena termina com uma linha pequena e devastadora: E virando-se o Senhor, olhou para Pedro. Rembrandt pinta o relato da negação em Mateus, mas importou o pormenor de Lucas para o fundo. Quase se perde de vista. Uma figura num grupo de sombras, voltada na direcção errada. Depois a sua cabeça gira.

Essa figura é Cristo, a ser levado do pátio do sumo sacerdote. O pátio é onde Pedro se aqueceu, tentando ser anónimo na multidão. Dessa distância de sombra, no exacto instante em que Pedro nega pela terceira vez, Cristo volta-se e olha. Rembrandt pinta o olhar como o pequeno girar de uma cabeça, apenas captado.

O que o versículo regista

Mateus 26:74-75

"Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou. E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente."

Começou a praguejar e a jurar. O verbo grego katathematizein é um juramento formal, quase jurídico — Pedro invoca sobre si próprio a maldição caso o que diz seja falso. Não é mentira simples. É negação elevada. Pedro quer que a serva, os soldados e todos perto do fogo saibam que ele não é um deles. Usa a linguagem mais forte que tem.

Então o galo canta. Mateus dá isso numa linha. Um som fora dos muros, ao amanhecer. Rembrandt não pinta o galo. Pinta o momento, dentro do pátio, em que a negação ainda está selada, antes do canto, antes da volta, antes da lembrança. Pinta o que parece ser aquele que levanta a mão.

Os quarenta segundos

Copie o versículo à mão — só a última frase: e, saindo dali, chorou amargamente. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro já sabe. Que a negação é um pequeno gesto de longa cauda. Que por vezes aquele que mais o ama se voltará, no pior momento, para que não se possa deixar de ver o olhar. Que a vela erguida junto ao seu rosto não é segurada por um inimigo.

A mão ainda está erguida. O galo ainda não cantou. A cabeça está apenas a começar a girar.
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