Na Capela Contarelli de San Luigi dei Francesi, em Roma, Caravaggio pintou um cobrador de impostos chamado a tornar-se apóstolo. Cristo entra pela borda direita, com Pedro ao lado. O braço direito ergue-se lentamente, o indicador apontado — sem mirar ninguém com precisão, flutuando sobre uma mesa onde cinco homens contam moedas.
O dedo
Um dos homens levanta a cabeça. Aponta para o próprio peito, interrogativo: eu? Outro, jovem, curvado sobre as moedas, não levanta a cabeça sequer. Dois outros olham para Cristo, mas nada dizem. Toda a cena paira num segundo suspenso. Caravaggio não pintou o chamamento. Pintou a incerteza que antecede a resposta.
A luz que chega com a pergunta
Um único raio desce do canto superior direito, entrando na sala logo acima da mão de Cristo. Ilumina os rostos dos cobradores e deixa o próprio Cristo na sombra. A luz não anuncia quem chama. Anuncia os chamados. Cai sobre rostos que ainda não decidiram se são eles os destinatários.
É a inversão decisiva do quadro. Em pinturas bíblicas anteriores, a luz emanava de Cristo para fora. Aqui, cai de través — luz lateral, como um raio da manhã por uma porta alta — sobre um grupo de homens que por acaso estavam na sala. Como se o instante de se ser chamado começasse não com uma voz ou um reconhecimento, mas com uma sala que de repente fica mais clara, e alguém perguntando se é sobre ele.
O versículo que não hesita
"Partindo Jesus dali, viu sentado na coletoria um homem chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu."
O texto é brutalmente curto. Dois verbos para Cristo: viu, disse. Dois verbos para Mateus: levantando-se, seguiu. Quatro verbos. Sem vida interior. Sem psicologia. O evangelista ou não sabia o que passou pela mente de Mateus, ou achou irrelevante. Caravaggio sabia o que o Evangelho se recusou a descrever. Pintou o segundo entre viu e levantando-se — o segundo que, para a maioria de nós, dura uma vida inteira.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão. Quarenta segundos. Nesse tempo, sente o que o quadro sabe: que a maioria dos chamamentos passa sem ser reconhecida, porque a luz vem com uma pergunta, não com uma resposta, e porque o dedo apontado aponta sempre em mais de uma direcção.
O dedo ainda não foi baixado. As moedas ainda estão sobre a mesa.