Num canto escuro do Ermitage em São Petersburgo está pendurado um dos últimos quadros de Rembrandt. Um pai inclina-se sobre um filho ajoelhado diante dele, o rosto pressionado contra o seu ventre, as costas voltadas para nós. O rosto do pai é calmo, os olhos entreabertos. As suas duas mãos repousam sobre os ombros do filho.
As mãos sobre as suas costas
Olhe de perto para as mãos. Não são iguais. A esquerda é mais larga, mais grossa — mão de operário. A direita é mais delgada, os dedos mais finos. Os estudiosos notam a diferença há muito. Uns leem-na como erro pictórico. Outros como afirmação teológica: a compaixão do pai é simultaneamente paterna e materna, masculina e feminina. Seja como for, estas mãos seguram um filho que se gastou até ao fim e voltou.
O pé meio fora do sapato
Desça o olhar. O sapato esquerdo do filho escorregou, meio de fora. O calcanhar está caloso e em carne viva. A sola está gasta. São os pés de alguém que caminhou muito por maus caminhos. Sobre as costas, uma túnica cinzenta e fina. Rembrandt pintou o estado de uma pessoa a quem nada resta.
A parábola diz que ele gastou a sua herança "vivendo dissolutamente" e se viu a morrer de fome diante de um chiqueiro. O que ele ensaia no caminho de volta é um discurso: Pai, pequei contra o céu e diante de ti. O discurso é sobre ser rebaixado de filho a servo. Espera condições.
O pai que correu
"E, levantando-se, foi ter com seu pai. E, quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e se compadeceu dele, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou."
Correndo. No mundo patriarcal da Judeia do primeiro século, homens adultos não corriam. Correr era indigno. Que um pai corra ao encontro de um filho que regressa é suspender a dignidade do chefe da casa. Jesus conta a parábola sabendo que os seus ouvintes ouvirão o escândalo nesse verbo. O pai não espera que se aproximem dele. Cobre a distância que o filho está demasiado fraco para cobrir.
Rembrandt congela a cena logo após a corrida. O pai já o apanhou. Não o levanta. Segura-o onde caiu. Qualquer discurso que o filho tivesse preparado está a ser pressionado contra a túnica do pai. Não há transacção.
O irmão que se mantém à parte
Na orla direita, mal iluminado, um irmão mais velho observa. As mãos cruzadas, o rosto ilegível. A parábola não termina no abraço. Termina com o pai a sair, de novo, para suplicar a um segundo filho que se recusa a entrar. Rembrandt inclui-o como uma sombra. O quadro não diz se ele entrará.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão — só a oração que escandalizou os ouvintes do primeiro século: o seu pai o viu, e se compadeceu dele, e, correndo. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro sabe. Que alguns regressos são recebidos com uma velocidade que envergonha o ensaio de quem regressa. Que as duas mãos sobre as suas costas podem não ser as mãos que esperava.
O pai não fala. O filho não fala. O irmão mais velho ainda não entrou.