Artigo · Na arte

A tesoura desce. O adormecido ainda não sabe o que lhe está a ser tirado.

Um gigante a dormir, um colo que o embala, e uma serva com uma tesoura. Leia o Sansão jovem de Rembrandt ao lado de Juízes 16:19 — o versículo de uma perda que ainda não se sente.

Judges 16:19

Rembrandt pintou a traição de Sansão no início da sua carreira, por volta de 1628, aos vinte e dois anos. É uma tela pequena e apinhada, iluminada por uma única lâmpada e um feixe de luz do dia através de uma cortina. No centro, Sansão dorme atravessado nos joelhos de Dalila. Uma serva está ajoelhada atrás dela, tesouras na mão, inclinada sobre a cabeça do homem adormecido. Soldados esperam à porta, logo fora da luz principal.

A tesoura e o segredo

Dalila olha o rosto de Sansão. A sua expressão é difícil de nomear. Não é triunfo. Não é ódio. Algo mais próximo de uma atenção fixa, como se tentasse manter a própria expressão apenas o suficiente para atravessar o minuto seguinte. A sua mão segura a cabeça de Sansão enquanto a tesoura desce.

A história que o quadro não simplifica

O livro dos Juízes conta uma sedução longa e repetida. Dalila pergunta três vezes a Sansão onde está a sua força. Três vezes ele mente. Depois ela desgasta-o com "palavras todos os dias" e ele acaba por dizer a verdade: a sua força está no cabelo.

Juízes 16:19

"Então o fez dormir sobre os seus joelhos, e chamou um homem, e rapou-lhe as sete tranças da cabeça; e começou a afligi-lo, e retirou-se dele a sua força."

Começou a afligi-lo. O verbo hebraico é waterha'enneh — começou a atormentar, a oprimir. É este o versículo que Rembrandt pinta. Não a traição em si — já ocorrera no próprio perguntar. Não a cegueira — essa é a cena que pintará mais tarde com horror. Este é o instante da perda, antes de Sansão saber que perdeu.

O quadro mantém-no adormecido. O rosto está calmo, a barba ainda cheia, o braço solto sobre a coxa de Dalila. Todo o seu corpo se crê em segurança. O corte ainda não se registou. Rembrandt mostra a força a escoar-se de uma pessoa que ainda não despertou para o facto.

Duas formas de cumplicidade

Olhe para a serva com a tesoura. É ela quem corta. Dalila segura a cabeça. Os soldados esperam. Ninguém sozinho no quadro executa toda a traição. A responsabilidade está distribuída por toda a cena.

É o argumento silencioso de Rembrandt, mais tarde expandido na sua obra madura sobre Judas e sobre a negação de Pedro: o instante do mal distribui-se muitas vezes por várias mãos, qualquer uma das quais poderia tê-lo detido. As tesouras, os braços que embalam, as armas à espera. Ninguém no quadro é inocente. Ninguém no quadro faz tudo.

Os quarenta segundos

Copie o versículo à mão — só a meia frase: começou a afligi-lo, e retirou-se dele a sua força. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro sabe. Que algumas perdas acontecem antes de estarmos despertos para elas. Que a mão que nos segura com ternura e a mão que corta estão às vezes na mesma sala, e às vezes no mesmo rosto.

A tesoura ainda não terminou. Os olhos continuam fechados. A sala sabe o que o adormecido não sabe.
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