Na Galleria Borghese, em Roma, pende um pequeno quadro: um jovem pastor segura pelos cabelos a cabeça cortada de um gigante. O jovem pastor é David. O gigante, Golias. E o rosto de Golias é — como os historiadores de arte reconhecem há séculos — o do pintor, Caravaggio. A maior parte dos estudiosos pensa hoje que o jovem David é também Caravaggio, tal como ele se lembrava de si antes do homicídio que cometeu em 1606.
Os dois rostos do pintor
Dois autorretratos num só quadro. Um eu mais velho segurado por um eu mais jovem. Um pintor que se tornou inimigo daquilo que foi.
A tristeza no rosto vivo
O que mais surpreende neste quadro é que David não está triunfante. Está triste. Os lábios levemente entreabertos, a cabeça inclinada, a testa na sombra. Segura a cabeça pelos cabelos quase com delicadeza, como se o peso o incomodasse. A espada pende baixa, apontada de lado, não erguida em vitória. Sem trombeta, sem multidão. Apenas o rapaz e o que fez. Atrás dele, uma escuridão surda.
Caravaggio pintou isto nos últimos anos de vida, provavelmente em 1609–1610, em fuga após ter matado um homem numa rixa em Roma. Procurava, pelo mecenato do cardeal Scipione Borghese, obter o perdão. O quadro pode ter feito parte desse pedido. Mostra o pintor a oferecer a própria cabeça ao juízo, levada pelo seu eu mais jovem, ainda inocente.
O que diz o versículo
"Assim Davi prevaleceu sobre o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e feriu o filisteu e o matou; sem ter Davi espada na mão. Por isso correu Davi, e pôs-se em pé sobre o filisteu, e tomou a sua espada, e tirou-a da bainha, e o matou, e lhe cortou com ela a cabeça."
O homicídio é contado duas vezes. Versículo 50: Davi mata Golias com uma pedra. Versículo 51: corta-lhe a cabeça com a espada do próprio Golias. Sem ter Davi espada na mão. O narrador hebreu quer que o leitor não passe por isto. O rapaz nada possuía de seu à altura das armas do gigante. A espada que acaba por ter na mão é a do gigante.
Caravaggio conhecia o versículo. A espada na mão do seu David, segundo a insistência do texto hebreu, não é dele. É a de Golias — isto é, a do próprio pintor. David segura o que não trouxe.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão — só a meia frase: sem ter Davi espada na mão. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que o quadro sabe. Que qualquer triunfo obtido sobre os próprios monstros chega tarde, custa mais do que se esperava, e se cumpre com armas emprestadas.
A espada é de Golias. A mão é de David. Os dois rostos são, ambos, do mesmo pintor.