Numa galeria de palácio em Potsdam, Alemanha, está pendurada uma das pinturas mais físicas da arte cristã. Tomé, um dos apóstolos, inclina-se pela esquerda, o dedo empurrado até à articulação dentro da ferida aberta no lado de Cristo. Dois outros apóstolos apertam-se em volta, as cabeças próximas, os olhos fixos no buraco. O próprio Cristo, à direita, abriu o manto com uma mão e guia com a outra o pulso de Tomé.
O dedo dentro da ferida
Nenhuma luz exceto sobre os rostos e a ferida. O resto é escuridão. Sem público, sem cenário, sem mobília. Quatro cabeças e uma ferida.
O que os pintores tinham evitado
A cena é antiga na arte cristã — está nos mosaicos do século VI de Sant'Apollinare Nuovo, em Ravena, e um relevo românico do claustro de Santo Domingo de Silos, esculpido por volta de 1100, já coloca o toque de Tomé no centro da composição. A partir do século XIII alguns pintores vão mais longe e põem Cristo a pegar na mão de Tomé para a guiar. O que a arte anterior mantém é a distância: as figuras ficam separadas, o gesto lê-se do outro lado da sala, a ferida é um sinal e não uma abertura.
Caravaggio recusou o decoro. No seu quadro, a articulação está dentro. Vê-se a pele do lado de Cristo a pregar-se em volta da intrusão de Tomé. Os rostos dos três homens não são reverentes — são concentrados, quase clínicos, como médicos a examinar uma ferida. A testa de Tomé está franzida. Ainda não está convencido. Está no ato de ser convencido.
O versículo
"Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram."
Cristo não repreende Tomé por precisar de prova. Dá-lhe a prova. Chega a tua mão, e põe-na no meu lado. O convite é direto e físico. Tomé havia dito antes que não creria sem pôr o dedo nas marcas dos pregos. Cristo responde com exatamente a prova que ele nomeara. Para Tomé, a fé chega pela mão.
A frase seguinte — bem-aventurados os que não viram e creram — é por vezes lida como repreensão. Mas Jesus di-la a Tomé enquanto Tomé ainda está a tocar. É um reconhecimento suave: Tomé precisava disto, e a maioria dos que virão depois não o terá. Haverá uma distância entre a ferida e os que crêem. A distância não será uma desvantagem. Será o seu próprio modo de ver.
Copie o versículo
Copie o versículo à mão — só a última linha: bem-aventurados os que não viram e creram. Quando terminar, repara que a frase fala de gente que não estava na sala. A história da fé começa com um dedo dentro de uma ferida e continua com muitos que não viram nem o dedo nem a ferida. E as duas formas de conhecer contam por igual.
O dedo está dentro. O pulso está a ser guiado. Os olhos estão a fazer aritmética.