William Blake gravou vinte e uma chapas para o Livro de Job entre 1823 e 1826. Tinha quase setenta anos. Há cinquenta anos fazia gravuras de temas bíblicos, mas a série de Job era diferente — era uma só leitura sustentada de um único livro, e seria a última grande obra que concluiria antes da sua morte em 1827. Trabalhou para John Linnell, o jovem pintor que o apoiou na sua última década. Blake era pobre, parcialmente cego, e talvez a única pessoa em Inglaterra que compreendia plenamente o que estava a fazer.
A última obra
Cada uma das vinte e uma chapas tem uma imagem central rodeada de margens de texto bíblico e de pequenas figuras acompanhantes. O conjunto lê-se como uma meditação sobre a transformação de Job: da prosperidade da chapa 1, através da destruição nas chapas 2 a 5, das longas discussões com os amigos nas chapas 6 a 13, dos discursos de Deus a partir do remoinho nas chapas 14 a 17, e da restauração nas chapas 18 a 21.
A frase que começa tudo
A meio da sequência de Blake, a frase célebre aparece na margem:
"E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!"
O Senhor o deu e o Senhor o tomou. Job acabou de saber, por quatro mensageiros consecutivos, que todos os seus bois, ovelhas, camelos e filhos morreram. O versículo é a sua resposta. É uma das frases mais célebres da Bíblia porque é uma das mais difíceis de ler à letra. Bendito seja o nome do Senhor — dita ainda no pó da catástrofe.
Blake não endossa leituras fáceis deste versículo. As chapas seguintes mostram Job a discutir com os amigos, a acusar Deus, a exigir respostas, a calar-se sob a censura, e por fim a ser interpelado por Deus a partir de um remoinho. A primeira resposta de Job está certa, mas o livro — e Blake — recusa deixá-la sozinha. O sentido pleno de bendito seja o nome do Senhor leva mais vinte chapas a chegar.
A mulher em cada margem
Na maioria das tradições artísticas, a mulher de Job é deixada de fora ou mostrada brevemente a amaldiçoá-lo. Blake mantém-na na imagem. Chapa atrás de chapa, ela está sentada ao lado dele sobre o monte de cinzas, muitas vezes na mesma postura, muitas vezes com a mesma expressão. Não diz muito; o livro de Job mal lhe dá uma frase. Mas Blake recusa deixá-la desaparecer. Quando Job é restaurado, ela é restaurada ao lado dele.
O argumento silencioso de Blake: esta não é a história da provação solitária de um homem. É a história de duas pessoas que perderam tudo e esperaram juntas. A maioria dos teólogos passou por cima dela. Blake nunca o fez.
Os quarenta segundos
Copie o versículo à mão — inteiro: o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor. Quarenta segundos. Nesse tempo sente o que as chapas sabem. Que esta frase não é um destino. É um ponto de partida — as primeiras palavras honestas ditas por alguém a quem o pior aconteceu. O resto do livro, e o resto de uma vida, é o lento trabalho de querer dizer de facto o que foi dito demasiado depressa no primeiro dia.
A mulher continua ao lado dele. O remoinho ainda não falou. O versículo é um começo, não um fim.