A cidade assenta numa bacia entre as colinas da baixa Galileia, virada para o vale de Jezreel em baixo. 32,7021°N, 35,2978°E — cerca de 25 quilómetros a oeste do Mar da Galileia. A cidade do evangelho de Lucas é a mesma cidade no mapa de hoje. Mesmo nome. Mesma bacia. Mesma vista.
Uma cidade pequena demais para não levantar dúvidas
No primeiro século, Nazaré era uma aldeia judaica de cerca de 400 a 500 habitantes. Tão pequena que Natanael, em João 1:46, pode fazer a pergunta célebre: De Nazaré pode sair coisa boa? A cidade ficava fora das rotas comerciais principais. Não aparece de todo na Bíblia hebraica — nem em Josué, nem em nenhum profeta, em lista administrativa nenhuma. A primeira referência escrita fora dos evangelhos é uma inscrição de sinagoga do século III encontrada em Cesareia, listando as famílias sacerdotais que ali se mudaram após a destruição romana de Jerusalém.
"Chegou a Nazaré, onde fora criado e, segundo o seu costume, entrou um sábado na sinagoga e levantou-se para ler."
Este versículo surge depois do batismo e da tentação. Lucas faz um ponto deliberado. A cidade ausente da Bíblia hebraica é a cidade para a qual o Messias regressa. O versículo nomeia a sinagoga, o dia, o costume. Nazaré é o único lugar dos evangelhos em que Jesus é mostrado a levantar-se para ler a Escritura.
A basílica e a gruta
A Basílica da Anunciação, erguida em 1969 sobre igrejas mais antigas dos séculos IV e V, encerra uma pequena gruta tradicionalmente identificada como a casa de Maria. Por baixo do piso da basílica moderna estão os restos reais de uma casa de aldeia do primeiro século — visíveis através de uma secção em vidro, alguns metros de Nazaré original ainda de pé. A basílica é uma das maiores igrejas do Médio Oriente. A gruta é um dos menores santuários de peregrinação do mundo.
A poucos passos, a Igreja da Sinagoga assinala o local onde se passa o versículo de Lucas. A sinagoga efetiva do primeiro século desapareceu, mas a localização não é seriamente disputada; a aldeia de 30 d.C. era pequena o suficiente para haver apenas um edifício destes.
O Monte do Precipício
Logo a sul da povoação eleva-se o penhasco que Lucas 4:29 chama o cimo do monte sobre o qual estava edificada a sua cidade. A identificação tradicional é o Monte do Precipício, a cerca de três quilómetros da basílica. O caminho entre a sinagoga e o penhasco pode percorrer-se em uns quarenta minutos. Quer a geografia corresponda versículo a versículo, quer não, a topografia da cena evangélica continua no terreno.
Nazaré hoje
Nazaré é hoje a maior cidade de maioria árabe de Israel — cerca de 70 000 habitantes, maioritariamente muçulmanos com uma importante minoria cristã. A sua cidade-irmã, Nazaré Ilit (hoje Nof HaGalil), de maioria judaica, fica logo a leste. As duas autarquias assentam no mesmo conjunto de colinas. A cidade é administrativamente israelita, culturalmente árabe palestiniana, religiosamente plural; o evangelho e a atualidade partilham as mesmas coordenadas sem se resolverem.
Copie o versículo
Copie o versículo à mão. Chegou a Nazaré, onde fora criado e, segundo o seu costume, entrou um sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Quando terminar, vê quais são as palavras que fazem o trabalho todo: segundo o seu costume. Nada anuncia que aquele dia fosse fora do comum. Está na terra onde cresceu, num sábado igual aos outros, a fazer o que fazia todas as semanas havia anos.
Uma aldeia demasiado pequena para a Bíblia hebraica tornou-se o adjetivo que todo o credo cristão ainda carrega: Jesus de Nazaré.