Artigo · Na arte

O cavalo enche a tela. O homem está por baixo. A conversão começa como mudança de posição.

Sem anjos, sem Cristo nas nuvens — apenas um homem, um cavalo e uma voz. Caravaggio pinta a conversão de Paulo a partir do chão.

Acts 9:3-4

A Conversão no Caminho de Damasco de Caravaggio está na Capela Cerasi de Santa Maria del Popolo, em Roma. A primeira coisa que qualquer visitante nota: o cavalo é grande demais. Ocupa quase metade da tela. O flanco pálido brilha na luz. O casco levantado preenche o canto superior direito. Em baixo, no chão, um homem pequeno está estendido de costas, de olhos fechados, os braços erguidos para uma luz que não vem exactamente de lugar nenhum.

O cavalo é grande demais

O homem é Saulo, em breve Paulo. Um velho moço de estrebaria segura o cavalo pelo freio. O cavalo, indiferente, não reage ao homem caído. É uma pintura de uma transformação espiritual em que o agente espiritual é invisível.

O que Caravaggio deixa de fora

Em pinturas anteriores desta cena, os artistas pintavam a voz. Um Cristo nas nuvens, raios de glória, anjos testemunhas, por vezes o casco do carro de Deus. Caravaggio não pinta nada disso. Nem Cristo, nem anjo, nem sinal no céu. Há apenas um homem no chão, um cavalo por cima, e uma luz que não é mais forte do que um sol de tarde a entrar por uma porta.

Essa contenção é o argumento do quadro. O que aconteceu naquele caminho não pode ser representado de fora. Um espectador colocado no lugar que Caravaggio imagina teria visto exactamente isto: um homem caído, um cavalo, um moço perplexo. O instante sobrenatural ocorre dentro de um corpo já no chão.

O versículo invertido

Atos 9:3-4

"Indo ele já de caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. Caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?"

Repare no pronome. Por que me persegues? Saulo não perseguia Cristo. Perseguia os seus seguidores — membros de um movimento pequeno e ameaçado, presos em Damasco. Cristo, falando da luz, não se identifica como o Deus lá em cima, mas como aqueles que são perseguidos. A frase inverte a direcção do poder. O perseguido é o perseguido.

Por isso o quadro coloca Paulo debaixo do cavalo e não em cima. Ele está agora no chão, onde havia colocado outros. A conversão não começa com uma visão. Começa com uma mudança de posição.

Os quarenta segundos

Copie o versículo à mão — só a pergunta: Saulo, Saulo, por que me persegues? Quarenta segundos. Nesse breve tempo, sente o que o quadro sabe. Que algumas transformações não chegam como iluminação, mas como o ser derrubado da montaria a partir da qual se caçava.

O cavalo ainda está de pé. O homem no chão aprende agora com quem a voz se identificava.
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