#Rembrandt
5 · Rembrandt
Uma vela junto ao rosto. A pergunta de uma serva. E nas sombras atrás, uma cabeça a começar a girar.
Um pequeno gesto — a mão erguida, a boca aberta, a luz contra a face. Atrás, na sombra, a única pessoa que o amava vira a cabeça exactamente neste instante.
O rosto acima das tábuas é calmo. Rembrandt recusa dizer-nos se vão partir-se.
Séculos de debate: ira ou reverência, primeiro par ou segundo. Rembrandt pintou o instante que ambas as leituras exigem — e deixou o veredicto ao espectador.
A mão do anjo repousa sobre o ombro. O cálice não é retirado. A mão fica assim mesmo.
Um anjo chega. O cálice não se vai. A pequena água-forte de Getsémani de Rembrandt pinta o tipo de ajuda que acompanha, não que resgata.
As duas mãos sobre as suas costas não são iguais. O pai correu. Esse verbo era o escândalo.
Um filho ajoelhado, um pai que se curva, e duas mãos diferentes sobre umas costas gastas. A última palavra de Rembrandt sobre o perdão — e o irmão mais velho ainda à parte.
A tesoura desce. O adormecido ainda não sabe o que lhe está a ser tirado.
Sansão dorme. Dalila embala. Uma serva segura a tesoura. A traição está distribuída — e Rembrandt pinta o instante antes de alguém na sala ter dito a verdade.